28 de janeiro de 2015

Iemanjá - Uma Rainha Africana

Iemanjá é a mãe de todos os orixás. Em todo o Brasil, fiéis vestem branco e rezam, pedindo que a Rainha do Mar conceda amor e felicidade. Mas por que será que ela é representada como uma mulher de pele branca, de longos e lisos cabelos escuros? Por que veste uma túnica azul transparente? Por que assumiu as formas de uma sereia e é associada a Nossa Senhora? 

Bem, para responder a tantas perguntas deveremos ir por partes.

Dizem os pescadores, que Iemanjá vive no rastro que a lua deixa no mar. Protetora da maternidade, fertilidade e fecundidade, Iemanjá - a Rainha do Mar no candomblé e na umbanda -, ultrapassou as fronteiras religiosas e conquistou o coração de todos os credos. Não existe alguém que nunca ofereceu sua devoção atirando flores ao mar – no dia 31 de dezembro – ou especialmente no dia 2 de fevereiro, dia consagrado a ela.

Também chamada de Oloxum, Inaiê ou Janaína, Iemanjá representa a força feminina da geração da vida. Seu nome, Yiá Ommí Eja significa, em ioruba, “A Mãe Água que sustentam os pescadores” devido ao um rio nigeriano que desembocava no mar. Logo que chegou ao Brasil, a deusa africana Yiá Ommí Eja sofreu as influências da cultura europeia, logo sendo associada a uma sereia.

Mas é importante dizer, que nos candomblés de origem nagô, Iemanjá sempre foi representada como uma sereia (mãe dos peixes). Essa representação mitológica pode ter sido recriada a partir de várias lendas e culturas paralelas que atribuíam às sereias o poder do mistério feminino ao de um peixe perigoso, “devorador de almas”, que tragavam os homens para suas entranhas. Para os nórdicos, por exemplo, tanto a mulher, quanto os monstros marinhos seriam capazes de arrastar os homens para as trevas, para as aventuras em “outros mundos”Comparando a vida a uma longa viagem, para muitos povos as sereias representavam as emboscadas oriundas das paixões e dos desejos – como convém dos elementos indeterminados como o mar. Por isso era comum que os navegadores, antes de partir, presenteavam as sereias jogando “presentes” ao mar. Assim como os monstros que aterrorizavam os marinheiros em suas aventuras em terras de além-mar, as sereias representavam, além dos medos do desconhecido, a sorte da perpetuação. Simbolicamente a água salgada do mar representava as lágrimas derramadas dos que ficavam em terra firme. Ou das lágrimas contidas dos que partiam em busca de uma nova vida.  

COMO IEMANJÁ TORNOU-SE A RAINHA DO MAR?


É importante lembrar, que comparada às outras divindades femininas do panteão africano, Iemanjá é uma figura que não possui problemas existenciais ou passionais (como a vaidade de Oxum, a impulsividade de Iansã ou a rabugice de Nanã). Curiosamente, Iemanjá parece pertencer a outro universo feminino: ela é passiva, mãe e protetora dos demais orixás, nunca se envolvendo em paixões avassaladoras. Cabe a ela a condição de dona-de-casa, o papel de administradora do lar, de mãe e mulher em período integral. Talvez por isso, Iemanjá é uma das figuras mais conhecidas nos cultos brasileiros. Ao lado de Oxalá, Iemanjá ganhou o posto de rainha e senhora dos demais orixás.

A explicação para esse fato aconteceu na tradução de um sistema criado por uma sociedade descentralizada da vida tribal africana ao ser transferida para o Brasil, onde a cultura dominante foi a européia. Pelo sincretismo, os jesuítas portugueses forçaram a aculturação dos negros africanos e a aceitação, por parte deles, dos rituais e dos mitos católicos. Durante a escravidão, procuraram fazer “casamentos” entre santos cristãos e orixás africanos, buscando pontos em comum nos dois mitos. Para Oxalá, por exemplo, foi reservado o lugar de Jesus Cristo, fazendo-o ser considerado mais importante – não por uma relação de família e de papel social perante ela, como no original, mas pela hierarquia própria cristã. Para Iemanjá foi reservado o lugar de Nossa Senhora, sendo artificialmente “mais importante” que as outras divindades femininas, o que foi assimilado automaticamente em parte por muitos ramos da Umbanda. Coube a Iemanjá a associação e o papel de Maria, segundo cada região do Brasil: assim, Iemanjá passou a ser cultuada como Nossa Senhora da Glória, no Rio de Janeiro, Nossa Senhora da Conceição, em Salvador, e Nossa Senhora dos Navegantes, nas regiões e cidades ribeirinhas do Nordeste.


Mas a curiosidade maior reside na imagem de Iemanjá que acostumamos a ver desde pequenos. O perfil africano (que deveria pertencera a uma mulher negra, mãe, obesa, de seios fartos) foi substituído pela imagem de uma mulher branca, alta, de corpo bem torneado sob uma túnica azul transparente e caminhando sobre as águas; uma mulher jovial que exibe longos cabelos escuros - como um véu – esvoaçando ao vento. Uma mulher misteriosa, serena, cuja cabeça é coroada com uma tiara dourada - como uma rainha - e que das mãos derramam pérolas e flores no mar. Essa imagem foi reproduzida, esculpida em argila e passou a decorar o mar nos festejos em pequenos botes pesqueiros; e não demorou muito a personificar A Rainha do Mar. 

Dizem que essa imagem icônica (foto ao lado) popularmente cultuada no Brasil, foi criada por um português, Pai-de-santo, nos anos 1950. A ilustração foi inspirada no rosto de sua mulher, também espírita e filha de santo do Orixá. Segundo a antropóloga Monique Augras, essa imagem romântica de "uma rainha branca flutuando sobre as águas" acabou esvaziando o conteúdo africano sobre "uma rainha negra e poderosa" e se impôs como única representação de Iemanjá, a ponto de moldar a expressão corporal de suas sacerdotisas nos rituais. Entretanto, os negros jamais questionaram o embranquecimento de Yiá Ommí Eja...

Possivelmente o "retrato" da esposa do Pai-de-santo foi também influenciado por representações de outras deusas esotéricas ou gnósticas como a Ísis egípcia (compare essa antiga ilustração e tire as suas dúvidas). Ou talvez, o intuito dele fosse a intenção de desviar o preconceito religioso e racista das elites nas primeiras décadas do século XX. Pelo sim, pelo não, que tal continuarmos a falar sobre os preconceitos que passam ao largo e pouco são percebidos na sociedade? Continue esse artigo aqui.


SAIBA MAIS SOBRE O AUTOR DESSE ARTIGO
Pryom PRYOM é Numerólogo, Médium Espiritualista e Filho de Xangô. Ministra palestras sobre Numerologia e encontros sobre o autoconhecimento humano. Se quiser saber mais sobre ele, clique aqui. Se gostou do blog assine para receber os próximos artigos.

4 comentários :

  1. Olá!

    Como sempre em grande sintonia, ontem eu lembrava que sairia um novo texto"Iemanjà",comentado anteriormente ,indaguei ,vou cobrar, sairá quando...
    E pela manhã abro o face e dou de cara com essa pérola!

    SALVE MINHA MADRINA!

    Grata, meu amigo de grandes jornadas!

    Mandaran.

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    1. Obrigado pelo carinho, Mandaran! Demorei na pesquisa, mas acho que na avaliação final valeu a pena. Nesse artigo sobre Iemanjá, busquei incentivar o conhecimento sobre a nossa cultura religiosa. Ela é muito rica, acredite. MUITO RICA MESMO!
      NAMASTÊ

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  2. Obrigada p/suas Lindas Aulas. Acompanho sempre.
    Gilmara Matos

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