LEVANDO A CULPA - A ORIGEM DO BODE EXPIATÓRIO


Quem vive culpando o outro pelos seus erros jamais conseguirá encontrar a paz. No dia que estiver disposto a assumir a responsabilidade pelas suas atitudes tudo resolverá. Hoje em dia, em tempo de delações premiadas, a expressão "bode expiatório" é praticamente usada para pressupor a inocência de um acusado de corrupção sobre a qual recaem as culpas de um delito que jura não ter feito.



Simbolicamente, segundo Chevalier, um homem é chamado de bode expiatório na medida em que é culpado pelos erros dos outros, sem que seja feito qualquer apelo à Justiça, sem que ele possa apresentar sua defesa e sem que ele tenha sido legitimamente condenado. E essa tradição, conclui o pesquisador, é quase universal.



No passado, para evitar qualquer julgamento precipitado, a pressuposta "inocência" era testada de uma forma bastante curiosa pelos gregos da ilha de Lêucade. Dizem que se costumava atirar do mais alto rochedo um criminoso condenado à morte que pudesse representar toda a classe de facínoras. A pena poderia parecer injusta, mas para equilibrar Justiça e Misericórdia, amarravam-lhe penas de pássaros para tornar mais leve a sua chegada ao Paraíso. Se o condenado sobrevivesse, era retirado do mar e posto em liberdade, mas sob a condição de nunca mais voltar a pisar na ilha. Não sei se isso funcionaria no Brasil atual, pois faltaria penas de pássaros para tantos empresários e políticos que se proclamam "inocentes"...

Já entre os hebreus, o "bode expiatório" teve origem numa antiga prática judaica, onde todos os anos, na festa do Yom Kippur (Dia da Expiação), o rabino colocava a mão na cabeça de um bode vivo e confessava-lhe as iniquidades do seu povo. O pobre animal era levado para o deserto e abandonado à míngua. Era uma espécie de despacho à moda judaica. Outros detalhes se encontram no capítulo 16 do Livro do Levítico.

AS CRÔNICAS DA IDADE MÉDIA: O BODE, O DIABO E A FEITICEIRA


Além de levar a culpa dos outros, na Idade Média, época em que o Cristianismo triunfou, o bode assumiria uma caracterização mais negativa: a associação às práticas de bruxaria. Segundo os acusadores, os caprinos serviriam de montaria para as mulheres que confessavam adoração ao deus cornudo (imagem à esquerda). (o deus metade homem, metade bode, imagem abaixo) foi incluído no panteão das aberrações pagãs como a representação dos seres nascidos da Luxúria. Foi assim que a figura do Diabo foi imortalizada pelos artistas: a pele avermelhada (cor do pecado), os chifres retorcidos e os pés fendidos. A gargalhada estridente parecida com um balido foi um ingrediente acrescentado nas encenações do teatro bufão.



Aliás, os olhos amarelados do bode ajudaram a inflamar ainda mais a mente doentia dos acusadores. Por não serem redondas, as pupilas dilatadas do animal eram horizontais, que permitia fazê-lo enxergar à noite num ângulo de quase 360º  - outra evidência de que o bode parecia saber muito mais do que aparentava.

OS TEMPLÁRIOS, A MAÇONARIA E OS BODES PRETOS


Durante o período obscuro de fanatismo religioso, a Ordem dos Templários também serviu de alvo dos inquisidores: diziam que os nobres cavaleiros comandados por Jacques Bourguinhon DeMolay eram adoradores de Baphomet, o ídolo símbolo do hermetismo iniciático. Acusados de pederastia e bruxaria, DeMolay foi condenado à morte na fogueira, mas os preceitos inquisitoriais não conseguiram extirpar o aspecto positivo do bode, que assim como o carneiro, é ligado à energia do Elemento Fogo. Daí, o signo de Áries, na Astrologia.



Outra lenda muito difundida é a que dizia que os maçons do passado se reuniam clandestinamente à noite para sacrificar um bode! É bom que se esclareça que não existe qualquer analogia nas páginas dos rituais maçônicos a respeito disso ou sobre a figura do Baphomet egípcio. Essa crença de que os maçons possuem um pacto com o capeta não passa de uma grande bobagem. A crença surgiu baseada no fato de se vestirem de chapéus e ternos escuros, daí, a pilhéria de serem conhecidos como "bodes pretos".

A Maçonaria Universal soube resistir às perseguições e adotou o simbolismo pejorativo do bode transformando-o em uma alegoria positiva (imagem acima). Hoje em dia é comum ouvir os maçons dizerem que os candidatos à iniciação "montarão um bode". Ou mesmo chamarem afetivamente entre si de "bodes". Esse costume surgiu entre os antigos maçons das primeiras Lojas no Brasil, baseados na pronúncia da palavra "brother" (irmão), a maneira carinhosa que a Maçonaria inglesa tratava seus adeptos.

E O "POVO DA RUA" ACABOU LEVANDO A CULPA 


O bode também está presente em diversos provérbios populares. "Deu bode" é uma delas. A expressão significa "aquilo que resultou numa situação indesejável ou confusa". Um dessas situações "indesejáveis" se refere ao que aprendemos conhecer os "espíritos involuídos" - os exus - conhecidos na Umbanda, uma religião brasileira criada pela elite branca - como "o povo de rua". 

Poucos têm conhecimento, mas na sua origem a Umbanda negava e preconceituava os negros. No início dos anos 1940, no Rio de Janeiro, o Primeiro Congresso do Espiritismo de Umbanda aprovou várias teses que defendiam a ideia bizarra, de que "a religião tinha suas raízes na Índia, de onde então teria sido levada para o continente africano". O conceito aprovado foi de que a Umbanda estaria fundamentada no Espiritismo de Allan Kardec e também às tradições hindus - daí a ideia de que os incultos Pretos Velhos deveriam parecer como "sábios conselheiros"; e os índios, homens valentes, fortes e protetores - esses últimos, baseados nos personagens românticos do índio Peri, de José de Alencar. Essas duas primeiras entidades benfazejas ganharam o antagonismo dos exus - ora considerados ambíguos e perigosos. Exu passou a ser encarado como um espírito carente de "evolução espiritual".



Por isso, na escala evolucional, os exus deveriam herdar as características físicas de um homem malicioso, de barba, cavanhaque, capa e cartola - uma aparência que lembrava bastante o homem transgressor das normas sociais dominantes nas primeiras décadas do século passado. Ou dos negros malandros, dos mulatos boêmios, dos ciganos e das mulheres de "vida fácil" que se acotovelavam nas periferias da cidade - os chamados "povo da rua". Já o torso nu, os chifres retorcidos, o rabo e a pele avermelhada eram baseados nas características folclóricas europeias dos sátiros e dos faunos. Era o preconceito e o fanatismo religioso ajudando fomentando a eterna luta do Bem contra o Mal.



Infelizmente, por ignorância, os negros ajudaram a cultuar e perpetuar esse preconceito. Basta estudar as imagens retratadas dos exus nas estatuetas cultuadas até hoje nos terreiros. Esse mesmo "bode" ocorreu na imagem de Iemanjá (leia sobre isso). Todos nós deveríamos refletir. Essa é mais uma maneira de atribuira culpa ao outro. Devemos saber que, na religião africana o Orixá Exu não carrega a Maldade. Ele representa, pois, a comunicação e o movimento do Universo. Nada, portanto, que se relaciona com os erros e a culpa dos outros.

Priom
PRIOM
Numerólogo e Espiritualista. Um Filho de Xangô que acredita no Crescimento e na Transformação Espiritual do seu semelhante. Se quiser saber mais sobre mim e o blog clique aqui.

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