14 de fevereiro de 2010

As várias faces de Deus

Segundo Elsie Dubugras, as religiões podem divergir entre si quanto a certos aspectos doutrinários, mas concordam que o céu, a Terra, o universo e tudo o que há nele são obras de Deus. Afinal, só a ação de uma causa primária pode explicar os processos cósmicos, o movimento, a vida e tudo o que existe. Ao longo da história, Deus tem-se constituído num símbolo que indivíduos, grupos e culturas utilizam de maneiras diversas e com significados diferentes para expressar sua visão da realidade transcendente. E, como tal, reflete sempre o pensamento predominante de cada época.

Nas civilizações primitivas, por exemplo, incapazes de conceber um ser imaterial, sem forma determinada, agindo sobre a matéria, os homens atribuíam a autoria de todos os fenômenos que não conseguiam entender e explicar a forças sobrenaturais, às quais conferiam uma aparência definida. Daí, a origem da crença em vários deuses, cada qual responsável por ações específicas.

No âmbito das religiões, o monoteísmo - a crença num Deus único - aparereceu com o judaísmo. Mas, desde os seus primórdios, a filosofia grega já se debruçava na busca de explicações sobre os fundamentos do ser a unidade do mundo sensível, postulando que os processos de mutação inerentes ao mundo material repousam sobre uma unidade básica, estável e atemporal.

Os filósofos pitagóricos, como Parmênides e Heráclito, propuseram que a unidade do mundo não é substancial, mas lógica e intelectual. Indo mais além, Platão e Aristóteles conceberam um princípio primordial sobre o qual estão alicerçadas a existência e a explicação do mundo. Sob esse aspecto, como logos (a razão) explicativo do real, Deus torna-se absolutamente indispensável, já que dele depende não só a existência do universo, mas também a possibilidade do seu conhecimento.

A tradição hebraica, ao contrário da grega, não se originou de qualquer atitude especulativa e intelectual frente ao mundo. O Êxodo foi a foi a experiência ética e política determinante do modo de pensar do povo hebreu. Por isso, o Deus que entregou as tábuas da lei a Moisés no Monte Sinai nada tem de metafísico: Ele é o Deus do poder libertador e transformador. Longe de representar o princípio último de inteligibilidade do real, atemporal e imutável, como queria a filosofia grega, Jeová exprime a vontade que constrói a história, e através dos seus profetas aponta "os sinais dos tempos" - as crises que engendrarão o futuro. Assim, enquanto para os gregos o conhecimento de deus implica um ato contemplativo em direção ao eterno, para os hebreus conhecer deus é obedecê-lo, abrindo espaço para um novo amanhã. Na cultura ocidental, essas duas mentalidades opostas acabaram se entrelaçando, sem contudo, atingir uma síntese estável. No que diz respeito particularmente à concepção de Deus, o pensamento grego se impôs de modo mais contínuo, e sua influência é claramente identificável em alguns dos pilares da teologia católica, como São Tomás de Aquino (1225-1274) - que referenda postulados de Sócrates e Platão.

Codificado por Allan Kardec (1804-1869) na segunda metade do século 19, o espiritismo tenta superar o bloqueio imposto pela tradição pragmática e empírica nascida na época moderna, usando como arma o próprio pensamento científico. É com base na mesma lógica positivista que considera o conceito de Deus destituído de significação, por não se referir a nenhum conteúdo sensível de experiência, que Kardec explica a existência de Deus e seus atributos - eterno, imutável, imaterial, único, todo-poderoso, soberanamente justo e bom -, assim como os fenômenos ditos sobrenaturais.

Como a Teosofia, o Espiritismo rejeita a idéias de um Deus pessoal, extracósmico e antropomórfico - o velho de barbas brancas que aparece nos livros de catecismos, à imagem e semelhança do qual o homem teria sido criado. Mas, ao mesmo tempo, opõe-se à teosofia na medida em que rechaça a noção panteísta do "Princípio do qual tudo se absorverá no final do grande ciclo do Ser" - conforme enunciado por Madame Blavastky -, herdada do hinduísmo.

Embora repleto de divindades, o panteão hindu reserva lugar para um Deus impessoal e supremo. O incognicível Princípio do Universo, de cuja essência emana tudo e ao qual tudo retorna. Ele é onipresente e onisciente Brahma (não o Brahma, personificação temporal do poder criador daquele), o qual anima desde o deus mais elevado até o átomo mineral mais diminuto.

O Deus único e todo-poderoso é também o pivô da religião muçulmana. O Corão constantemente ora a Alá, invocando seu inacessível mistério, seu e suas ações a favor das criaturas. Criador que julga e premia. Ele é onipotente e todo-misericordioso. De maneira similar aos hebreus, os islamitas dão ênfase ao inescrutável poder desse ser supremo, ao qual todos devem abandonar, ouvindo suas palavras através dos profetas e entregando-se totalmente a Ele através da fé.

Em última análise, estreitamente relacionado a circunstâncias históricas ou diretamente ligado à mentalidade especulativa e intelectual, o conceito de Deus emerge sempre como o conceito de um esforço constante do homem para responder a questões essenciais e perenes, atendendo à sua necessidade de viver num mundo possível de ser conhecido e compreendido.

Namaste!

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