30 de junho de 2010

Os Argumentos de Satanás

Existia lá pelo norte do Líbano, em tempos que já se foram, um missionário de nome Simão, versado nas questões espirituais teológicas. Era uma autoridade, por assim dizer, nos segredos do Paraíso, Inferno e Purgatório.

A missão de Simão era viajar de aldeia em aldeia, pregando, curando o povo da doença espiritual, do pecado e salvando-o das armadilhas terríveis de Satanás. Era respeitado pelo povo, que dele comprava seus conselhos ou suas preces em moedas de ouro e prata.

Numa certa tarde quando cruzava vales e montes. Simão ouviu um choro doloroso, emergindo de um fosso ao lado da estrada. Constatou, deitado no chão um homem nu com profundas feridas abertas na cabeça e no peito que implorava, desesperado, por auxílio. Simão pensando tratar-se de um ladrão, a principio quis negar-lhe auxílio, mas como o homem nu insistia dizendo ser um conhecido seu. Assim sendo, parou a caminhada. Dirigiu-se até o moribundo, ajoelhou-se e contemplou-o: viu um rosto estanho de feições contrastantes; era misto de inteligência e astúcia, fealdade e beleza, perversidade e doçura.

Ergueu-o cuidadosamente e perguntou:
__Quem és tu?
E o homem ferido moveu-se lentamente. Contemplou profundamente os olhos do outro. Nos seus lábios apareceu um sorriso misterioso. Numa voz profunda e doce respondeu:
__ Eu sou Satanás.
O irmão Simão soltou um terrível grito e respondeu:
__ Deves morrer, Amaldiçoado! Pelas línguas e os lábios da Humanidade, porque tu és o Inimigo! Tens propósito confesso de eliminar a Virtude da humanidade.


E Satã protestou:
__ Meu desdém pela Humanidade não é maior do que o teu ódio por ti próprio, meu caro. Amaldiçoas-me numa hora da minha derrota, embora eu sempre tivesse sido, e ainda continuo sendo a fonte da tua tranquilidade e felicidade. Negas-me a tua benção e não me proteges com a tua bondade, mas vives e prosperas à sombra do meu ser... Fizeste da minha existência uma escusa e uma arma para a tua carreira e objetivo de juntar o ouro ambicionado... Já achaste impossível extrair mais ouro e prata de teus seguidores, usando o meu reino como uma ameaça? Não sabes que morrerás de fome caso eu morra? O que farás amanhã se permitires que eu morra hoje? Que profissão seguirás se o meu nome desaparecer?

E encarando-o, prosseguiu:
__ Por décadas percorrestes estas aldeias, advertindo o povo do perigo que havia em cair em minhas mãos. Eles compraram os teus conselhos com os seus pobres dinares e com os produtos de suas terras. O que eles comprarão de ti amanhã se descobrirem que o teu perverso Inimigo não existe mais? Tua ocupação morrerá comigo, pois que o povo estará livre do perigo. Como podes permitir que eu morra aqui, quando sabes, seguramente, que com isto perderás o teu prestígio, tua igreja, teu lar, teu ganha pão?

Satanás parou de falar por um momento, enquanto o irmão Simão fixava-o transtornado.

Então Satanás continuou:
__  Depois que aqui na terra foi adotada a minha crueldade como profissão, na Babilônia o povo curvava-se sete vezes na adoração diante de um sacerdote que me combatia com seus contos... Em Biblos, Éfeso e Antioquia ofereciam as vidas de suas crianças em holocausto aos meus adversários. Em Jerusalém e em Roma colocavam suas vidas nas mãos daqueles que proclamavam odiar-me e combater-me com todas as forças. E todas as cidades debaixo do sol, meu nome era o eixo do círculo educativo das religiões, das artes e da filosofia. Se não fosse eu, templo não teriam sido erguidos. Sou a fonte que provoca a originalidade do pensamento. Sou Satanás que o povo combate para que continue vivo. Se eles pararem de lutar contra mim, a indolência amortecerá seus espíritos, corações e almas de acordo com os castigos do seu tremendo mito.

Prosseguiu Satanás:
__  Eu sou o construtor de conventos e mosteiros em alicerces de medo. Se eu cessar de existir, o medo e a alegria desaparecerão, desejos e esperanças deixaram de existir no coração humano. A vida tornar-se-á vazia e fria. Sou o pai e a mãe do Pecado, e, se o pecado desaparecer, os que o combatem desaparecerão comigo e com as suas famílias. Eu sou o coração do Mal! Diga-me, desejas que parem as batidas do meu coração? Aceitarias o resultado depois da destruição da causa? Eu sou a causa! Queres deixar-me morrer neste lugar deserto? Queres romper o laço que nos une? Responde-me, padre!

Depois de ouvir os argumentos de Satanás, o irmão Simão, estremeceu, esfregou as mãos nervosamente e desculpando-se disse:

__ Agora sei o que eu não sabia. Perdoa a minha ignorância. Sei que a tua existência neste mundo cria a Tentação e a tentação é a medida pela qual Deus avalia o valor das almas humanas. Estou certo de que se morres, a tentação morrerá, e com esta morte destruir-se-á a força ideal que eleva e alerta o homem. Deves viver porque se morrer e o povo vier a saber disso o seu medo do inferno desaparecerá e ele deixará os cultos, porque nada mais será pecado. Deves viver porque reside em tua vida a salvação da Humanidade do vício e do pecado.

E o irmão Simão aproximou-se, levou Satanás aos seus ombros e dirigiu-se para casa. Decidiu cuidar de suas feridas.

Um texto de Kalil Gibran

1 comentários :

  1. Os alunos aprendem melhor a lição errando... O erro está lá para nós conseguirmos enxergar a resposta! Pois não há nada no universo que seja desprovido de propósito...
    Namaste!

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