Gato preto dá azar? Entenda a origem desse mito, do simbolismo e do preconceito
Antigamente, nos testes de perfil comportamental de RH, eu evitava escolher o gato como o animal preferido, pois acreditava que os felinos eram considerados indolentes, antipáticos e antissociais. Não sabia até que ponto as minhas concepções eram corretas, mas coincidentemente os demais participantes do teste elegia os cavalos e os cães como exemplos de altivez e lealdade. Ainda bem que a psicologia e neurobiologia moderna desmistificaram completamente essa visão. Hoje, os gatos são vistos sob uma luz muito mais estratégica e valorizada no ambiente corporativo.
Mas faça um pequeno exercício de memória: em algum momento da sua vida você se lembrará de um gato deitado no balcão de uma mercearia bocejando, dormindo ou alheio ao movimento do mundo. Os gatos sempre foram assim. Mas o que mais me impressionava neles era o silêncio calculado, aquela elegância espiritual e o olhar blasé - uma postura que misturava um leve desdém, um quê de superioridade - que provavelmente poderia ser um escudo emocional. Apesar de serem taxados como desprovidos de raciocínio e os via como seres especiais guiados por uma fortíssima intuição.
A ORIGEM DOS MITOS
Amados ou repudiados, os gatos foram um dos animais mais citados e cultuados ao longo das histórias de todos os povos. Além do caráter sagrado, acreditava-se também, que os gatos eram os responsáveis pelo “transporte” das almas humanas para o “outro mundo".
Porém, na literatura, os gatos pretos ajudaram a reforçar estereótipos quando passaram a servir de metáforas para os impulsos sombrios da personalidade humana. O Gato Negro, de Edgar Allan Poe, é um exemplo clássico: o conto, escrito em 1843, explora temas de culpa, violência, vícios e decadência moral. O gato preto de Poe transcende sua forma física, tornando-se uma força anímica que espelha o tormento psicológico do narrador. O uso literário explorou o poder simbólico do gato e amplificou a sua presença no sobrenatural. Para leitores atraídos pelo gótico e pelo macabro, os gatos pretos serviram como alerta das complexidades da natureza humana. Eles desafiam a enfrentar nossos medos, nossas falhas e as sombras que permanecem teimosamente dentro de nós.
O gato preto cruzou a estrada. Passou por debaixo da escada - (Secos e Molhados)
A ORIGEM DOS PRECONCEITOS
A origem dos preconceitos vieram da dubiedade do gatos. Por ser heterogêneo, os gatos oscilam entre as tendências benéficas e maléficas, o que se pode explicar pela atitude a um só tempo terna e dissimulada do animal. Considerado o primeiro animal doméstico, o gato, desde sempre, foi associado a ritos sagrados, à magia e à superstição. Desde a Antiguidade eles ocupam posições de destaque, que variam de acordo com a sociedade, à época a qual pertenciam.
OS GATOS NO ORIENTE
No Japão, os gatos são animais de mau augúrio, capazes segundo dizem, de matar as mulheres e de tomar-lhes a forma. Mas mesmo assim, em muitas cidades o gato tem um valor decorativo, como o simpático Maneki-Neko - presente em quase todos os estabelecimentos comerciais japoneses.
No Camboja costuma-se transportar um gato dentro de uma gaiola de casa em casa no decurso de uma procissão, com a finalidade de obter chuva no período grande de seca: cada morador do vilarejo deve regar o gato, cujos aflitos miados comovem Indra, o deus distribuidor das chuvas.
Aliás, no mundo búdico, o Gato é muito criticado por ter sido um dos dois únicos animais que não se comoveram com a morte do Buda (o outro foi a Serpente!). A reação do felino, no entanto, poderia ser analisada de um ponto de vista diferente e ser interpretada como um sinal de segurança emocional e Sabedoria Superior.
O GATO ENTRE OS FARAÓS
Os gatos eram respeitados no antigo Egito e matá-los era considerado um crime hediondo: a punição a quem ousasse maltratar ou tirar a vida de um era a pena de morte. Os gatos eram classificados como divindades, pois se considerava que tinham poderes de oráculo. Bastet, uma importante deusa do panteão egípcio, era representada com corpo de mulher e cabeça de gato.
E uma cidade inteira, Bubastis, era consagrada à adoração desse felino onde um festival em sua honra era realizado todos os anos, em maio com a participação de cerca de meio milhão de peregrinos. Os gatos mortos eram embalsamados pelos seus donos e enviados a Bubastis para o funeral coletivo.
O GATO NAS TRADIÇÕES CÉLTICAS
Os gatos eram animais de prestígio também na Grã-Bretanha, onde os ritos sagrados eram realizados em sua honra. Nas terras escandinavas havia freia a deusa gata, cuja carruagem dizia-se, era puxada por gatos. Na tradição céltica, entretanto, os gatos eram tratados com certa desconfiança.
O GATO PRETO, SÍMBOLO DE MÁ SORTE
Assim como a galinha preta, o gato preto desempenhava um importante papel na magia e na feitiçaria. Conhecidos como animais prediletos das bruxas, acreditava-se que as mulheres acusadas de criar sortilégios encarnavam o corpo de um gato preto para fugir das perseguições durante a Inquisição durante a noite. Associado ao diabo e, segundo a crença, dotado de nove vidas, o gato era o companheiro maléfico do diabo e das feiticeiras que participavam dos sabás.
O gato preto não é sinal de má sorte. E mesmo com as tentativas de desmistificar esse preconceito, até hoje permanece uma superstição segundo a qual não se deve continuar caminhando por uma rua se um gato preto atravessá-la à nossa frente. Maltratar os animais é ignorância e crime. Perigosos somos nós, você concorda?
UM GATO PRETO, MAS FELIZ
Lembra do Gato Félix? O Gato Félix é um personagem do desenho animado criado cartunista Pat Sullivan, em 1919, na era do cinema mudo. Sullivan escolheu o nome "Félix" propositadamente para ironizar o conceito de infelicidade tradicionalmente associado aos gatos pretos. O personagem sabia criar todos os tipos de truques e tinha uma mochila com poderes mágicos que permitia assumir a forma e as características de qualquer coisa que quisesse. Nos primeiros episódios, Félix utilizava a cauda como uma varinha de condão - um bastão mágico que o livrava de todos os perigos.
Félix era um gato preto de gargalhada fácil. Carregava um jeito malandro parecido com os negros americanos dos Anos 1920, época de profunda perseguição racista. Embora os primeiros episódios fossem em preto e branco, o gato era o estereótipo do "escurinho feliz", esperto e despreocupado. Félix se apresentava como se estivesse em um minstrel show, um tipo de teatro norte-americano de variedades que surgiu em 1830, onde atores brancos, de ascendência europeia, se apresentavam com a cara pintada de negro.

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